Echo, echo, echo(...)

sexta-feira, 24 de março de 2017

O herói sem nenhum caráter


Na foto: poema de CivoneMedeiros Click: FotoLumina
 
 
 
Gustav Flaubert, escritor francês (1821-1880), apesar de absolvido no processo que lhe moveram há 160 anos por conta de sua Madame Bovary, mesmo ainda hoje, se fosse vivo, certamente escutaria coisas do tipo “Não gosto de Madame Bovary. Emma é uma mulher muito depravada” - como outro dia escutei de uma amiga, num clássico modelo metonímico de apreciação.

Como um bom advogado - que não sou - defendi Emma Bovary, destacando justamente suas falhas de caráter como algo genial na obra de Flaubert, dizendo a essa minha amiga “Mas a grande literatura é aquela que mais se aproxima do humano...” .

 Foi Miguel de Cervantes (se não o primeiro, certamente o mais conhecido) que “esculhambou” com a figura boçal do herói virtuoso, dando-lhe um ar patético e sonhador. Iniciando o que passou a se chamar de literatura moderna, somente muito tempo depois.

Digo muito tempo depois porque até a chegada da desconfiança, do ciúme, da inveja, da dissimulação às letras, foram quase dois séculos- do bufão Dom Quixote ao parricida Smerdiakóv.

Como numa sopa primordial[1], acontecimentos dramáticos dentro da história humana (como guerras, as grandes descobertas científicas ou revoluções tecnológicas) sempre levam a algum tipo de reflexão; criando a condição para a dúvida, a angústia, ou o simples questionamento pelo lugar do homem no mundo. (O que me leva a pensar, em dias como os nossos, “Oh, poetas do amanhã, grandes escritores, ergam-se”! O futuro é aqui!).

O final do século XIX pareceu viver uma nova espécie de renascimento- E que século de mãos![2] - Dostoiévsky, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Zolá, Strindberg, Stendal (para ficarmos só aqui...)

Essa tendência de desmitificação dos valores - desde o realismo - veio se consolidar finalmente nos escritores do pós-guerra (No caso, nas duas guerras do início do século XX), nos movimentos europeus de vanguarda e na psicanálise. No entanto, foi curiosamente na “Arte moderna”, e hoje em dia nos fenômenos de cultura pop, que houve uma inversão no epíteto.

Os deuses, na antiguidade, se portavam muitas vezes como mortais em suas ações mundanas. Tinham raiva, inveja. Possuíam diversos amantes. E mesmo assim, nunca deixavam de serem deuses. Hoje, os heróis, quando assumem a sua porção humana, são considerados anti-heróis, como o Deadpool ou o Wolverine.

E ao contar com o termômetro de popularidade desse velho-novo gênero demasiado humano, lotando salas de cinema, em detrimento de tipos como o do super-homem (aquele modelo de perfeição que veio lá de outro planeta, inalcançável sobre as alturas... como sonhava Friedrich Nietzsche...), onde a narrativa de uma trama possa se iniciar- por exemplo- a partir de um tiro na bunda[3], muitos já devem estar até por aí dizendo: deus deve estar mesmo morto.

 

 
[1]  Teoria sobre o qual, a mistura de composto orgânico, em função de determinadas condições, podem ter dado origem a vida na terra.
 
[2] Trecho do poema Arthur Rimbaud, “Sangue Mau”.
 
[3] Cena inicial do filme Deadpol.
 
 
Autor: William Eloi...
 

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